
A obra-prima \"Aniki-Bóbó\", de Manoel de Oliveira, ganha uma nova vida através de uma cuidadosa restauração digital e será apresentada em destaque na conceituada secção Venice Classics do 82º Festival Internacional de Cinema de Veneza. Este evento cinematográfico anual proporciona uma plataforma global para revisitar e celebrar clássicos do cinema, e a inclusão de \"Aniki-Bóbó\" sublinha a sua relevância contínua e o legado duradouro do realizador português. A minuciosa recuperação desta primeira longa-metragem de Oliveira, um marco no cinema mundial, assegura que a sua visão artística e a profundidade narrativa permaneçam acessíveis e vibrantes para as futuras audiências, mantendo viva a memória de um dos maiores cineastas da história.
Lançado originalmente em 18 de dezembro de 1942, no Cinema Éden, em Lisboa, \"Aniki-Bóbó\" é uma exploração poética e perspicaz do universo infantil, baseada no conto \"Os Meninos Milionários\" de Rodrigues de Freitas. Filmado com crianças do Porto, o filme transcende a sua narrativa superficial para abordar complexidades inerentes à condição humana. Como o próprio Manoel de Oliveira descreveu em 1954, a película capta \"os problemas do Homem, problemas ainda em estado embrionário: o bem e o mal, o ódio e o amor, a amizade e a ingratidão\", e evoca \"o medo da noite e do desconhecido, a atração da vida que palpita em todas as coisas à nossa volta, contrastando com a monotonia do que é fechado, limitado por paredes, pela força ou pelas convenções\". A nova cópia digital, resultante de um processo de digitalização 4K de alta precisão, envolveu a imersão em janela líquida do negativo original de câmara de 35mm e do negativo de som ótico. Estes foram complementados por cópias de distribuição, com todos os materiais fílmicos cuidadosamente preservados e coordenados pela Cinemateca Portuguesa.
O processo de restauro foi uma colaboração exemplar entre diversas entidades. A digitalização, o restauro digital e a correção de cor foram efetuados em parceria pela Cineric Portugal e pela Irmã Lúcia – Efeitos Especiais. O restauro digital do som, por sua vez, foi realizado pelo Estúdio BillyBoom em 2024, utilizando uma cópia de época como base. Todo este trabalho meticuloso foi coordenado pela Cinemateca Portuguesa no âmbito do projeto FILMar, uma iniciativa que integra o Mecanismo Financeiro do Espaço Económico Europeu (EEA Grants) 2020–2024. Este notável esforço de conservação e renovação reforça o compromisso com a salvaguarda do património cinematográfico. A apresentação desta obra restaurada em Veneza segue os passos de outros trabalhos de Oliveira, como \"Francisca\" (2019) e \"Vale Abraão\" (2023), que também foram exibidos em edições anteriores de prestigiados festivais, solidificando o reencontro do público internacional com a singularidade da obra do mestre português. A distribuição global do filme será assegurada pela agência Luxbox Films, enquanto a Nitrato Filmes ficará responsável pela distribuição a nível nacional. Adicionalmente, em 2024, a Cinemateca Portuguesa e a Fundação de Serralves lançaram um abrangente catálogo raisonné da filmografia de Oliveira, uma obra essencial para estudiosos e amantes do cinema.
A ressurreição de \"Aniki-Bóbó\" para o grande ecrã, com esta magnífica restauração, não só presta homenagem a um dos pilares do cinema português, mas também garante que a sua mensagem atemporal e o seu brilhantismo técnico continuem a inspirar e a cativar as audiências modernas, perpetuando o legado inestimável de Manoel de Oliveira no panorama cinematográfico mundial.
