Dengue no Brasil: A Complexa Dança dos Sorotipos e o Desafio da Saúde Pública

A dengue continua a ser uma grave preocupação de saúde pública no Brasil, com o número de casos se mantendo consistentemente alto devido à circulação variada dos sorotipos do vírus. A ocorrência simultânea e alternada dos quatro tipos de DENV (DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV-4) cria um cenário de hiperendemicidade, onde a imunidade adquirida contra um sorotipo não protege contra os outros, aumentando o risco de infecções repetidas e formas mais severas da doença. Este fenômeno exige uma vigilância constante e estratégias de saúde pública mais robustas para lidar com a complexidade da doença em diversas regiões do país.

Em 2025, o Brasil registra o quarto ano consecutivo com mais de um milhão de casos prováveis de dengue, destacando a persistência da doença no território nacional. Um exemplo disso é Presidente Prudente, em São Paulo, que até abril contabilizou mais de 15 mil casos suspeitos e 19 óbitos. A cidade recebeu apoio da Força Nacional do SUS, com a implementação de centros de hidratação e leitos temporários para desafogar o sistema de saúde local. A dinâmica de alternância dos sorotipos é uma das principais razões para essa recorrência, onde a população fica suscetível a novas infecções a cada mudança de variante.

A série histórica do Ministério da Saúde, que começa em 2000, revela um padrão cíclico da dengue, com picos de casos seguidos por quedas acentuadas, geralmente associadas à imunização natural da população contra o sorotipo predominante. No entanto, os últimos anos têm desafiado essa lógica. Embora 2025 tenha visto uma redução de 81,3% nos casos em comparação com o recorde de 2024 (que registrou 6,6 milhões de casos prováveis e mais de 6 mil óbitos), os números ainda se comparam aos de 2022 e 2023, mantendo a preocupação em níveis elevados. A coexistência e a alternância dos sorotipos contribuem para essa persistência.

A presença simultânea dos quatro sorotipos do vírus da dengue (DENV-1, DENV-2, DENV-3 e DENV-4) em diferentes regiões do Brasil, um fenômeno conhecido como hiperendemia, é um fator crucial. A infecção por um sorotipo não confere imunidade contra os outros, e infecções subsequentes por diferentes variantes podem levar a quadros mais graves da doença. No cenário brasileiro, a predominância dos sorotipos tem variado ao longo do tempo. O DENV-1, por exemplo, prevaleceu em dois períodos distintos: de 2014 a 2017 e de 2021 a 2024. Atualmente, o DENV-2 voltou a ser o mais frequente, enquanto o DENV-3, que esteve ausente por alguns anos, ressurgiu em 2024 e agora é o segundo mais comum.

A reemergência do sorotipo DENV-3 tem sido particularmente preocupante. Pesquisadores da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp), como o virologista Maurício Lacerda Nogueira, monitoram as variantes do vírus há quase duas décadas. Eles identificaram o aumento dos casos de DENV-3 no noroeste de São Paulo no final de 2023, com o genoma do vírus apresentando semelhanças com cepas que circularam no Caribe e na Flórida. Lacerda sugere que o DENV-3, considerado o mais virulento, pode se espalhar por todo o país nos próximos dois anos. A Organização Pan-americana da Saúde (Opas) emitiu um alerta em fevereiro, ressaltando a importância do diagnóstico precoce e tratamento adequado para evitar formas graves da doença e mortes, especialmente em populações que nunca tiveram contato com esse sorotipo.

Estudos recentes, como o publicado na The Lancet Regional Health – Americas pelos pesquisadores Rafael Lopes e Leonardo Bastos, apontam para a suscetibilidade de diversas regiões do país a futuras epidemias. Analisando dados de 2015 a 2024, eles mapearam as áreas com maior risco, indicando que, embora algumas regiões Centro-Oeste, Sudeste e parte do Sul tenham menor probabilidade de surtos de DENV-1 e DENV-2 devido à sua ampla circulação anterior, quase todo o Brasil permanece vulnerável a epidemias causadas pelos sorotipos DENV-3 e DENV-4. Esses estudos são cruciais para o planejamento e aprimoramento das estratégias de comunicação de risco e alocação de recursos, embora a participação ativa da população na prevenção continue sendo fundamental para mitigar a dimensão dos surtos.