



Cientistas portugueses desvendaram uma notável correlação entre os fenômenos magmáticos que outrora atuaram em Portugal continental e a formação das ilhas da Madeira e das Canárias. Esta descoberta redefine a compreensão das dinâmicas vulcânicas e geológicas que modelaram estas regiões atlânticas. A pesquisa aponta para uma fonte comum, situada em camadas profundas do manto terrestre, que impulsionou o surgimento destas formações geológicas distintas ao longo de dezenas de milhões de anos. O estudo lança uma nova luz sobre a natureza dos hotspots e a complexidade dos processos subterrâneos.
As implicações deste trabalho vão além da mera cartografia geológica, sugerindo que a atividade magmática na Península Ibérica, embora hoje inativa, teve um papel crucial na arquitetura insular que hoje conhecemos. A continuidade da investigação nestas áreas poderá não só aprofundar o conhecimento sobre a evolução geológica do Atlântico, mas também fornecer ferramentas para futuras aplicações, como o sequestro de carbono em estruturas vulcânicas, realçando a relevância prática deste saber fundamental.
A Influência Magmática Portuguesa na Genese Insular
Uma equipa de investigação lusa, composta por cientistas da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade NOVA de Lisboa (NOVA FCT) e do Instituto Dom Luiz da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, trouxe à luz uma ligação geológica fundamental. O seu estudo demonstra que os processos magmáticos que ocorreram em Portugal durante o final do período Cretácico, há cerca de 70 a 100 milhões de anos, desempenharam um papel determinante na formação e evolução das ilhas vulcânicas da Madeira e das Canárias. Esta descoberta desafia as perspetivas convencionais sobre a origem de formações geológicas vulcânicas, conhecidas como hotspots.
Os investigadores propõem que plumas estacionárias, localizadas na interface entre o manto inferior e superior, a aproximadamente 660 quilómetros de profundidade, têm liberado episodicamente pequenas plumas secundárias ao longo dos últimos 100 milhões de anos. Estas erupções vulcânicas não só originaram rochas encontradas em Portugal continental e na plataforma submersa, mas também em Marrocos, Madeira e Canárias. Este modelo inovador sugere uma visão mais dinâmica e complexa da atividade magmática, onde as superplumas não agem como um fluxo contínuo, mas sim como uma fonte intermitente de material que emerge à superfície, esculpindo a paisagem e a geologia das regiões afetadas. O trabalho, publicado na prestigiada revista Geology, representa um avanço significativo na compreensão dos mecanismos geofísicos que moldam o nosso planeta.
A Dinâmica Oculta das Plumas do Manto e o Futuro Geológico
As plumas do manto são estruturas subterrâneas de fluxo de material rochoso quente, que, ao contrário das placas tectónicas em constante movimento, permanecem fixas. O estudo pioneiro conduzido por cientistas portugueses oferece uma reinterpretação crucial sobre como estas plumas estacionárias, posicionadas na fronteira entre o manto inferior e superior, podem influenciar a atividade vulcânica. Em vez de uma ascensão contínua, como tipicamente observado em hotspots como o do Havai, a investigação sugere que estas superplumas liberam pequenas ramificações de forma descontínua, gerando padrões complexos de vulcanismo e magmatismo à superfície do planeta.
Esta nova perspetiva permite não só explicar a distribuição dos fenómenos magmáticos nas margens de Portugal e Marrocos, mas também a formação das cadeias montanhosas submarinas que se estendem para norte a partir dos arquipélagos da Madeira e das Canárias. Embora o magmatismo esteja atualmente inativo em Portugal continental, com evidências visíveis em formações rochosas nas áreas de Lisboa, Sintra, Mafra, Sines e Monchique, a compreensão destas dinâmicas passadas é vital. Além de aprofundar o nosso conhecimento sobre grandes províncias magmáticas, os resultados deste estudo abrem portas para implicações futuras, como a exploração de vulcões extintos para o armazenamento de dióxido de carbono, uma estratégia promissora para mitigar as emissões de gases de efeito estufa. Este avanço científico não só enriquece a geologia, mas também aponta para soluções inovadoras para desafios ambientais globais.
