Capital Nacional da Cultura 2024: Aveiro para principiantes

A uma viagem de comboio de cerca de duas horas a partir de Lisboa e de 40 minutos do Porto (num Alfa Pendular), a cidade dos moliceiros e dos cagaréus está mais do que pronta para o receber.

Destacamos hoje cinco palavras-chave essenciais para compreender Aveiro. Para quem nunca lá foi ou está um pouco a leste de uma cidade imprescindível no Centro do país, este pequeno guia pode ser um bom começo para organizar o seu próximo fim-de-semana. 

1. Arte Nova

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Alexandre Rotenberg / Shutterstock

Um passeio à deriva por esta cidade dos canais desvia o nosso olhar para ocasionais fogachos de cor por entre os edifícios contemporâneos. É um espectáculo que faz parte do encanto do período arquitectónico da Art Nouveau (Arte Nova, em português).

Surgido na Bélgica no final do século XIX, este movimento artístico espalhou-se pela restante Europa, assumindo uma identidade diferente de país para país. A chegada da Arte Nova a Portugal coincide com o seu final pelo resto do continente europeu. Algures entre 1907 e 1909, começam a aparecer os primeiros edifícios, embora o ensaio geral seja a casa do arquitecto que a trouxe para Portugal, o aveirense Francisco Silva Rocha. E como tal, a capital da Arte Nova portuguesa é Aveiro.

A chegada deste estilo arquitectónico à cidade coincide com um período de renascimento que se seguiu à abertura da Barra de Aveiro algumas décadas antes. A exuberância e festa de cores permanente da Arte Nova sincronizou-se com o desejo de afirmação urbana aveirense. Assim, mais do que arquitectura, a Arte Nova é o símbolo desta prosperidade, e por isso de uma nova Aveiro. O exemplo mais emblemático é o da casa Major Pessoa, um ex-líbris da cidade com a sua mistura de pedra rendilhada e pujante ferro forjado, e por isso mesmo convertida em Museu Arte Nova, em 2008. Outros edifícios que se destacam na paisagem urbana aveirense são os das Farmácia Ala, Casa das Quatro Estações ou Vila Africana. Para lhe facilitar a vida, propomos-lhe este roteiro. 

2. canais 

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António Gama / Shutterstock

É um cliché, mas é um incontornável cliché: o título de “Veneza portuguesa” deve-se aos canais que atravessam a zona ribeirinha e fazem parte do complexo jogo de engenharia que controla o temperamento selvagem da Ria de Aveiro. Com o tempo, estas vias fluviais deixaram de ser apenas uma utilidade: são hoje parte inegável da identidade de Aveiro, juntamente com as embarcações que as cruzam, os coloridos moliceiros, através dos quais é possível conhecer os recantos da cidade.

Existem vários pequenos canais que serpenteiam o leito da Ria. Foram criados não só para controlar a subida das águas, mas também para navegá-las, transportando os produtos fabricados no espaço da laguna aveirense, como o sal, que então chegavam ao Porto de Aveiro e assim se encaminhavam para a cidade. Vinham dos cais ao longo da Ria, ou das pequenas ilhotas que nela se espalham.

Há três canais principais dentro da cidade: o Canal do Cojo, o Canal Central e o Canal de São Roque. Os dois primeiros atravessam o centro da cidade, tendo a antiga Capitania do Porto de Aveiro como foco, enquanto o terceiro se desenvolve junto à Ria e faz ligação com esta. A utilização dos canais na economia da cidade está patente até na sua toponímia: o do Cojo, por exemplo, foi designado em tempos por Ribeira das Azenhas, pela concentração desses engenhos nas suas margens; e a zona do Canal de São Roque sempre se designou de Bairro à Beira-Mar por ser o ponto onde estavam instaladas muitas das salinas de Aveiro, também pela favorável situação geográfica.

3. gastronomia doce e salgada

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A ideia de comer uma cidade pode parecer ridícula quando ouvida. Mas uma vez provada, fica-se com poucas dúvidas que aquilo que os pés calcam e tudo o que os olhos podem absorver é comparável à experiência de seguir de prato em prato. 

Sem dúvida que o ovo mole é o símbolo gastronómico da cidade. Entre freiras dominicanas, franciscanas e carmelitas, todas lhe meteram a colher. Mas o doce nasce do sentido prático das religiosas, que usando as claras dos ovos para limpar os seus hábitos, ficavam com as gemas por usar. Decidiram então aplicá-las como base para o creme do doce.

É muito comum a massa de bolo dos ovos se apresentar em motivos aveirenses, como os moliceiros, ou então embrulhada dentro de massa de hóstia, moldada com motivos marinhos. Mas a pregação gulosa continua com outros doces, como as barricas, as cavacas de São Gonçalinho, os bolos de 24 horas, as raivas, os esquecidos…

No capítulo dos salgados, as enguias são cabeças-de-cartaz: são acompanhadas por arroz, ou então mergulham-se numa caldeirada. Há quem as prefira em sopa, mas os mais arrojados e destemidos erguem-se de coragem para enfrentá-las em cabidela ou escabeche. Outras criaturas navegam nos pratos, algumas vindas da ria: solha, sável, robalo, berbigão, caranguejo…

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Saboreando o peixe e marisco de Aveiro

4. salinas 

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A noroeste da cidade, as salinas de Aveiro são uma ampla exploração localizada na Ria. É possível que a exploração salineira da região remonte pelo menos à era romana, mas a primeira referência é feita em 959, na doação da condessa Mumadona a um mosteiro de Guimarães.

Como a formação da Ria de Aveiro começa no século X, fica ainda por saber se as salinas já estavam no local onde se encontram hoje, ou se dependeram sempre da presença da Ria para existirem. Os avanços e recuos da produção estiveram sempre dependentes da instabilidade da Barra de Aveiro, cuja natureza migrante a fez circular ao longo da costa desde Ovar quase até Mira.

As salinas são um conjunto mais ou menos complexo de valas, canais, tanques e lagoas de decantação e evaporação, cujo fim último é fabricar o sal através da flitração da água. Aveiro apresenta uma dificuldade adicional a esta indústria, pois o seu clima húmido não favorece o processo de evaporação que cria o sal, que continua a ser a principal exploração, tanto o culinário, como o usado na indústria cosmética, em cremes hidratantes, sabões ou esfoliantes.

A flor do sal, que é a fina camada que flutua à superfície das salinas, é um tipo de sal mais refinado utilizado em saladas para acentuar o sabor dos vegetais. Para além disso, começa-se a descobrir o uso da salicórnia, uma pequena erva que cresce nas salinas e é considerada gourmet noutros países.

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Quando o sal tem forma de planta

Hoje em dia, existem poucas salinas a funcionar: de 270 que estavam registadas nos anos 60 do século XX (quando Aveiro era o segundo distrito com mais salinas, a seguir às 300 de Setúbal), já só existiam 49 em 1994. Actualmente, são menos de dez. As alterações naturais na ria, o efeito das marés e algumas obras no porto de Aveiro juntam-se à natural falta de competitividade dos métodos tradicionais na explicação desta decadência. Na sua maioria, as salinas desactivadas tornaram-se pisciculturas ou museus que mostram ao turista e ao curioso a dureza, e até arte, da extracção do sal por métodos tradicionais. 

5. CAMPUS  

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É em 1973, ainda durante o Estado Novo, que a Universidade de Aveiro é criada pelo Ministério da Educação Nacional. O objectivo era descentralizar o ensino superior em Portugal, e proceder à alteração do modelo universitário com a introdução de novos cursos em áreas de inovação.

No caso de Aveiro, a aposta foi nas áreas das Ciências do Ambiente e Ciências da Educação, ainda hoje relevantes, embora a instituição tenha desenvolvido outras áreas de vanguarda que a tornam conhecida internacionalmente, nomeadamente em várias Engenharias. Duas curiosidades: Um dos primeiros motores de busca portugueses de Internet, o “Sapo”, foi criado na Universidade de Aveiro, e a Via Verde, um sistema automático de pagamento de portagens, também aqui teve origem. 

O campus universitário, denominado de Santiago, tem 65 edifícios espalhados numa área que equivale a 92 campos de futebol. Situa-se junto a um antigo complexo de salinas e é o centro visual da ideia de inovação e novidade que fundou a universidade. Destaca-se a harmonia com o espaço natural.

Apenas em 1988, com o plano de expansão coordenado pelo arquitecto Nuno Portas, se levou este visual à universidade. As linhas orientadoras do projecto eram simples: no máximo, os edifícios podiam ter três andares; as coberturas seriam planas; o revestimento das faces das edificações seriam em tijolo vermelho, um material identificativo da região de Aveiro. Era a tentativa de casar a moderna arquitectura com o espírito tradicional dos materiais, de ser clássico sem trair o espírito inovador. Alguns edifícios destacam-se: o Departamento de Geociências (1993), de Eduardo Souto de Moura; a biblioteca (1995), de Álvaro Siza Vieira; a reitoria (2000), de Gonçalo Byrne e Manuel Aires Mateus; e o complexo pedagógico, científico e tecnológico (2000), de Vítor Figueiredo.

Reserva Natural de São Jacinto 

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Ana Marques / Shutterstock

A alguns quilómetros da cidade dos canais, é possível perdermo-nos num labirinto construído a meias entre o Homem e a Natureza, num trabalho começado pela última e moldado pelo primeiro. Por entre um grupo de ilhotas que guardam também os seus segredos, vislumbra-se um extenso conjunto de dunas onde a vegetação reservou espaço e cresce sem incómodo, rodeada pelo mar e praticamente isolada de tudo o resto. É a Reserva Natural das Dunas de São Jacinto.

Situa-se no extremo da península homónima, e vai desde Ovar até à freguesia de São Jacinto. A sua exploração, partindo de Aveiro, é possível de duas maneiras: saindo de barco, a partir da zona portuária e atravessando a ria de Aveiro; ou de carro, e autocarro, passando a ponte da Varela, a norte da Murtosa.

A aparição dos terrenos onde hoje se situa a reserva natural é recente e surgiu com o avanço da Ria, que começa no século X a partir de Ovar. São Jacinto era um pântano, onde habitavam mosquitos que causavam problemas de saúde na cidade de Aveiro. O problema começou a ser resolvido em 1884, quando os Serviços Florestais procederam a um trabalho de arborização. Houve a necessidade de fixar as areias e criar novo território. O trabalho foi longo e durou até à década de 30 do século seguinte.

O estatuto de Reserva Natural surge em 1979 e cobre uma área de 70 hectares. A quantidade de espécies animais que se encontram nas dunas de São Jacinto é enorme, e apenas podemos referir algumas. A população de aves é a mais variada e destacam-se o ganso-patola, o corvo-marinho, algumas espécies de gaivotas e patos, estes habitando um grande charco que surgiu na década de 1980 depois de um grande incêndio que consumiu metade da vegetação. Por isso, o charco é conhecido por “Pateira”.